terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Genes de plantas na corrente sanguínea de humanos-TRANSGÊNICOS


Não para de crescer o número de evidências científicas que colocam em xeque a alegada segurança dos organismos transgênicos para a saúde de quem os consome.

 Um novo estudo realizado por pesquisadores húngaros mostrou que, ao contrário das afirmações proferidas pelas indústrias de biotecnologia e órgãos reguladores, fragmentos de DNA grandes o suficiente para carregarem genes inteiros podem não ser degradados no trato digestivo e, através de mecanismo ainda desconhecido, entrar no sistema circulatório humano.

As descobertas estão descritas no artigo científico intitulado “Genes inteiros podem passar da alimentação para o sangue humano” (na tradução livre do inglês), publicado na revista Plos One em julho de 2013.

Segundo explicam os autores, nosso sistema sanguíneo é considerado um ambiente bem separado do mundo externo e do trato digestivo. Acredita-se que macromoléculas ingeridas através da alimentação não podem passar diretamente para o sistema circulatório e que, durante a digestão, proteínas e DNA são degradados em componentes menores e só então absorvidos por um complexo processo e distribuídos para várias partes do corpo através da corrente sanguínea.

Alguns estudos anteriores publicados na literatura científica já haviam demonstrado que uma pequena quantidade de fragmentos de DNA provenientes da alimentação podem resistir ao trato digestivo e transpor a barreira intestinal, mas até agora nenhuma pesquisa havia investigado se grandes segmentos de DNA podem passar da alimentação para o sistema circulatório.

O novo estudo, entretanto, baseado na análise de mais de 1.000 amostras humanas oriundas de pesquisas independentes, aponta evidências de que fragmentos de DNA ingeridos, contendo genes inteiros, podem escapar da degradação e entrar na corrente sanguínea.  Mais que isso, os dados mostraram que este não é um evento incomum. Nas amostras analisadas, os pesquisadores puderam, inclusive, identificar de quais espécies de plantas eram oriundos os genes encontrados, como soja, canola, laranja ou nabo.


Um dado interessante foi que as maiores concentrações de DNA de plantas em amostras de sangue foram encontradas em pessoas que apresentavam doenças inflamatórias, como Doença Inflamatória Intestinal (DII) e síndrome de Kawasaki, um tipo de vasculite caracterizada pela inflamação de vasos sanguíneos em todo o corpo e que afeta principalmente crianças. Segundo os autores, esse fato indica que não se pode excluir a hipótese de que a alta concentração de DNA de alimentos no sangue esteja ligada à inflamação.

Os autores enfatizam, em suas conclusões, que as novas descobertas podem levar a uma revisão do conhecimento acerca dos mecanismos de degradação e absorção de ácidos nucleicos pelo corpo humano.

Estas descobertas, na verdade, colocam por terra um dos pilares da argumentação dos cientistas que alegam que os alimentos transgênicos são seguros para o consumo humano: o de que as proteínas modificadas são completamente degradadas no trato digestivo. À luz das novas evidências, abre-se um enorme leque de questões sem resposta a respeito dos efeitos adversos que transgenes podem provocar no organismo de quem os ingere.

Um outro estudo, este realizado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UNB) e publicado em março de 2013 pela revisa científica Journal of Hematology & Thromboembolic Diseases, avaliou a hematoxicidade e a genotoxicidade de toxinas Bt (aquelas presentes nas plantas transgênicas inseticidas) em ratos de laboratório. Na pesquisa, quatro proteínas Bt geneticamente modificados (Cry1Aa, Cry1Ab, Cry1Ac ou Cry2A) foram administradas nas cobaias através de uma sonda, isoladamente e em dose única, em diferentes concentrações, 24 horas, 72 horas ou 7 dias antes da eutanásia. Combinações binárias das proteínas também foram administradas em uma única concentração (270 mg/kg), em dose única 24 h antes da eutanásia.

Os resultados da pesquisa mostraram que as proteínas Bt isoladas provocaram hematoxicidade seletiva para 3 dos tempos de exposição. Foi também verificada a redução significativa na proliferação de células de medula óssea, indicando a manifestação de efeitos citotóxicos. Esses efeitos persistiram em todos os tempos de exposição às proteínas Bt, tornando-se mais evidentes aos 7 dias. Resultados similares foram observados nas combinações binárias em 24 horas de exposição. Não foram encontradas evidências de efeitos genotóxicos nas concentrações e períodos de exposição às proteínas Bt avaliados.

Observou-se ainda que a proteína Cry1Ab induziu o desenvolvimento de anemia microcítica hipocrômica nos ratos, mesmo na menor dose testada. Os autores ressaltam que, conforme descrito em pesquisa realizada no Canadá e publicada em 2011, esta toxina já havia sido detectada no sangue de mulheres não grávidas, mulheres grávidas e eu seus fetos no Canadá – supostamente as mulheres foram expostas à proteína transgênica através da alimentação.

Conforme apontado nas conclusões da nova pesquisa, de uma forma geral os resultados mostraram que as quatro proteínas transgênicas Bt testadas podem representar riscos hematológicos para vertebrados, aumentando seus efeitos tóxicos na exposição de longo prazo. Considerando o aumento da exposição de seres humanos e animais a essas toxinas, especialmente através da alimentação, os pesquisadores ressaltam a necessidade da                realização de estudos mais aprofundados para esclarecer os mecanismos envolvidos na hematoxicidade verificada nos ratos, bem como para estabelecer os riscos toxicológicos que as proteínas transgênicas Bt representam para organismos não alvo, especialmente os mamíferos – o que deveria ser feito antes de se concluir pela segurança dessas proteínas para o consumo humano, ao contrário do que fazem os doutores da CTNBio, que consideram as plantas Bt seguras “a priori”, dispensando a realização de estudos de longo prazo com cobaias.

No Brasil, estão aprovadas para cultivo comercial e consumo um tipo de soja, 7 tipos de milho e 7 tipos de algodão transgênicos contendo pelo menos uma das 4 proteínas Bt analisadas pelos pesquisadores da UNB, além de vários tipos de milho e algodão contendo outras cinco proteínas Bt do tipo Cry.

Referência dos estudos citados:
Spisák S, Solymosi N, Ittzés P, Bodor A, Kondor D, et al. (2013) Complete Genes May Pass from Food to Human Blood. PLoS ONE 8(7): e69805. doi:10.1371/journal.pone.0069805
Mezzomo BP, Miranda-Vilela AL, Freire IdS, Barbosa LCP, Portilho FA, et al. (2013) Hematotoxicity of Bacillus thuringiensis as Spore-crystal Strains Cry1Aa, Cry1Ab, Cry1Ac or Cry2Aa in Swiss Albino Mice. J Hematol Thromb Dis 1:104. doi: 10.4172/jhtd.1000104